quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

MetalliGaga


Lembro-me bem de quando assisti no Rock in Rio de 2013 a apresentação do Sepultura com o Zé Ramalho. Seria o encontro da maior banda de Metal brasileira com um dos grandes nomes da MPB, em especial da música Nordestina. Lembro-me também de que as opiniões se dividiram, com um lado achando a oitava maravilha do mundo unir Metal e MPB, e o outro achando que era o mesmo que comer Feijoada com Doce de leite. A segunda opinião me pareceu mais coerente, sendo que imaginava que nunca veria outra versão dessa culinária esquisita novamente.

O prato em questão, ou melhor, a apresentação em questão trouxe o Metallica junto de Lady Gaga. O encontro, ocorrido em 12/02 no Grammy 2017, trouxe consigo toda a polêmica que uma parceria desse porte poderia gerar. Ainda que o Metallica já tivesse esgotado sua cota com o controverso “Lulu”, fruto da união com o falecido Lou Reed, ao dividir o palco com uma diva Pop/Dance/Estilista/Marketeira como Gaga, fatalmente o dilema estaria colocado: a água do Metal se mistura com o óleo do Pop? Antes de mais nada, a banda executou “Moth Into Flame”, com Gaga dividindo - literalmente - o microfone com James, já que este, numa inacreditável falha para um evento do porte do Grammy, ficou com o seu sem funcionar quase metade da música. A apresentação teve labaredas pelo palco, bailarinos “bangeando” (?), a banda fazendo o de sempre e uma Lady Gaga se esforçando na atitude Rock n´Roll. A qualidade do que se viu é duvidosa, mas tenho convicção de que coisas desse tipo nada acrescentam a banda ou ao estilo, e foi benéfica única e exclusivamente para Gaga, ao mante-la em evidência na mídia. Como a época das vacas gordas para ela já passou, juntando isto aqui com a recente apresentação no intervalo do Super Bowl, deu para todo mundo lembrar que ela existe. 

Essas parcerias inusitadas não são novidade na música em geral, principalmente em eventos gigantescos como Grammy ou MTV Awards. Entretanto, quando envolve Heavy Metal, a coisa complica, como no caso do “Zépultura”, citado no início do texto. É notório que o radicalismo dos fãs ainda existe, embora hoje a mentalidade geral seja muito diferente de 30 anos atrás. Na década de 80, se instalaria uma guerra civil se algo desse tipo ocorresse. Lembro quando o Anthrax se juntou com o Public Enemy em 1991 para gravar a música “Bring the Noise”, foi um Deus nos acuda, onde só faltou chamarem o Papa para excomungar a banda. E olha que a música ainda tem um apelo Thrash, com o Rap predominando basicamente nas linhas vocais. Acontece que determinadas misturas dão certo, e o caso do Anthrax, além de excepcional, foi até premonitório, pois tempos depois a união Metal + Hip Hop ainda renderia muitos bons frutos.

Apesar do caso do Metallica ter sido apenas uma apresentação ao vivo em conjunto, a polêmica da validade deste encontro começou forte na rede. Já li comentários a favor, comentários contra, numa discussão que parece não ter fim, como era de se esperar. Da parte dos comentários contrários, onde me incluo – já disse acima que isso não acrescenta absolutamente nada para a banda que faz isso – essa resistência vem daqueles fãs mais antigos e, consequentemente, puristas. Lembro da época que o movimento Thrash começava a ferventar e os nomes seminais do estilo ainda engatinhavam suas carreiras: Slayer, Exodus, Kreator, Dark Angel, Sodom, Destruction, Overkill e muitos mais, com uma cena underground em rápida evolução. Para quem acompanhou esse processo, é extremamente difícil visualizar bandas dessa época se aventurarem da maneira que o Metallica eventualmente faz hoje. A questão é que elas, mercadologicamente falando, se encontram num patamar abaixo do Metallica, o que possibilita que elas mantenham intactas suas inspirações musicais, seu estilo, suas convicções e etc.. Talvez esse seja o grande trunfo dessas bandas: o fato de não terem atingido o topo da pirâmide como o Metallica fez, as permitiu manterem seu espírito do início de carreira. Isto possibilitou que elas e todas as outras que seguissem de maneira linear, lançando álbuns com regularidade de tempo e qualidade, enquanto o Metallica se dá ao direito de levar 8 anos entre um disco e outro, só ganhando dinheiro com turnês em cima de turnês. O mainstream e os rios de dinheiro que giram em torno da banda dão a ela conforto e a oportunidade de determinados luxos e excentricidades, como esse de tocar com Lady Gaga. É o tal momento em que o artista pode fazer o que lhe der na telha, pois dinheiro de sobra já há na conta bancária.

Outro detalhe é que parcerias são coerentes quando feitas com uma ligação lógica, uma conexão que faça sentido. No mesmo Rock in Rio do “Zépultura” tivemos os gigantes do brutal Death Metal Krisiun com os reis do Thrash Alemão Destruction. Na edição de 2015 tivemos Ministry (um dos principais nomes do Metal Industrial) com Burton C Bell (vocal do Fear Factory, outro grande nome do mesmo estilo) no mesmo palco, num encontro de gerações diferentes. Agora, dizer que Metallica + Lady Gaga é revigorante, ainda mais porque um nada tem haver com o outro, é contrassenso. O que se viu naquele palco foi uma banda de rock, tocando rock, com uma cantora pop fingindo ser rockeira: cadê a conectividade? Não há nenhuma, mas há o Marketing. O encontro (extremamente) inusitado chamou a atenção de todos e isso é o que conta, ainda que Gaga tenha se beneficiado mais, por razões já citadas aqui. Ao Metallica restou mais as críticas dos detratores (apesar de muitos defenderem também) e os problemas técnicos ao longo da apresentação. Coroando essa “vergonha alheia” (vi essa expressão muito bem colocada em um dos diversos comentários negativos na Internet), ainda tivemos Lars Ulrich, numa das entrevistas pós apresentação, dizer que Gaga poderia ser efetivada como 5º membro da banda: ainda estou tentando me decidir se foi ironia (creio que não, pois foi DELE essa idéia brilhante), se uma brincadeira de mau gosto com os fãs ou se foi Marketing barato mesmo.

Independente da resposta, é por essas e outras que o Metallica não me enche mais os olhos hoje. Se for para ficar vendo coisas como “Metalligaga” (ou “Gagallica”?) por aí, prefiro pegar meus discos antigos para ouvir, pois o Metal que brilhava naquela época era outro: o do estilo musical, não o do dinheiro.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Resenha Vídeo: “Ultimate Revenge 2” 1989 (Death, Dark Angel, Forbidden, Raven e Faith Or Fear)


Impressionante que estamos perto de completar 30 anos da gravação desse vídeo, que é simplesmente um dos mais sensacionais da década de 80, trazendo a nata do cast da Combat Records na época: Forbidden e Faith Or Fear (lançando seus debuts,  respectivamente “Forbidden Evil” e “Punishment Area”),  Death (no 2º álbum, o espetacular “Leprosy”), Dark Angel (lançando o 3º disco, “Leave Scars”) e os veteranos do Raven (no 7º da carreira, “Nothing Exceeds Like Excess”). O mais incrível é que passados todos esses anos, algumas dessas bandas se tornaram lendárias, sendo reverenciadas até hoje. Além disso, a sensação de revisar o espírito daquela época é uma das grandes surpresas desse vídeo, mostrando como a cena Thrash americana era forte, sendo um verdadeiro espetáculo ver estas bandas em ação, num momento em que não paravam de surgir grandes nomes no cenário. O vídeo foi gravado no Trocadero Theater, um clube localizado na Philadelphia, e foi o palco perfeito (desculpem o trocadilho) para este verdadeiro massacre musical.

O primeiro no vídeo é o Forbidden, que já trazia consigo um fato curioso: de suas fileiras, anos mais tarde, sairia o futuro batera do Slayer, Paul Bostaph, substituindo Dave Lombardo por 10 anos. Se não bastasse isso para atiçar a curiosidade de qualquer um sobre a banda, é necessário que dizer que o Forbidden fez um show destruidor. A banda era uma grande promessa e simplesmente fez uma apresentação impecável, misturando agressividade e técnica. Completada pelo vocalista Russ Anderson, os guitarristas Glen Alvelais e Graig Locicero e pelo baixista  Matt Camacho, a banda executa quatro verdadeiras pérolas do álbum de estréia: “Feel No Pain”, “As Good As Dead”, “Through Eyes of Glass” e “Chalice of Blood”. A banda é espetacular, destaque para a voz de Russ Anderson que se encaixa como uma luva na proposta da banda. Que conhece este album há de lamentar apenas a ausência de “March Into Fire” no vídeo, que provavelmente ficaria sensacional.

Desconhecido até para mim quando assisti a este vídeo pela primeira vez, o Faith Or Fear é a grande surpresa por aqui. Com o monumental “Punishment Area” recém lançado, a banda surpreende com um Thrash técnico e agressivo que não ficava devendo nada aos grandes nomes da época, bem como as outras bandas desse vídeo. Apesar de nova, a banda mostra segurança e foi destruidora na sua apresentação, com uma presença de palco muito boa. A banda executou as faixas “Punishment Area”, “What Would You Expect”, “CDS” e “Time Bomb” com sangue nos olhos e fez um set fantástico. Formado pelo vocalista Tim Blackman, os guitarristas Chris Bombeke e Bob Perna, o baixista Clarenec “CJ” Jenkins (R.I.P.) e o batera Rich Lohwasser, infelizmente o Faith Or Fear não passou do primeiro álbum, pois a banda se separou 3 anos depois. Uma pena, pois este vídeo deixa claro que a banda poderia ter alçado vôos bem mais altos.

Na sequência, aquele que, que para mim, é o nome seminal do estilo que batizou: o Death. Chuck Schuldiner – na época com apenas 21 anos – já dera ao mundo o assombroso “Scream Bloody Gore” e agora galgava um degrau acima no cenário do Metal extremo com o sensacional “Leprosy”. Com Schuldiner na guitarra e vocais, Rick Rozz na guitarra (que o acompanhava desde o embrionário Mantas, mas não tocou no debut), Terry Butler no baixo e Bill Andrews na bateria, a banda executa os hinos “Left to Die”, “Forgotten Past” e Pull The Plug” (simplesmente monstruosa ao vivo) do novo álbum e “Denial of Life” do primeiro disco. A banda dispensa comentários, as músicas são clássicos absolutos do estilo e são executadas numa performance impecável. Quanto às ausências, “Zombie Ritual” é quase que uma escolha óbvia. Se você é novo e não conhece esta banda, não perca tempo, pois é clássica.

Depois do Death, outro nome de peso surge: Dark Angel. Navegando nas águas de um Thrash brutal, tocado a velocidade da luz, a banda havia perdido o vocalista Don Doty, que havia cantado nos dois primeiros álbuns e cujo timbre característico já havia dado uma cara para a banda. Apesar do desafio, a banda recrutou o desconhecido Ron Rinehart, que apesar de inferior a Doty, executa bem o seu papel e tem grande presença de palco. Com restante do grupo intacto - Erick Meyer e Jim Durkin nas guitarras, Mike Gonzalez no baixo e Gene Hoglan na bateria – o Dark Angel faz uma performance coesa e empolgante, com direito até a teatrinho no início do show, com a banda de costas para o publico enquanto rola uma introdução movida à microfonia das guitarras. O destaque individual, obviamente, vai para Gene Hoglan, reconhecido nos dias de hoje como um dos maiores bateristas de metal da atualidade. Já nessa época ele já demonstrava uma técnica absurda, mesmo em meio a velocidade alucinante de algumas músicas. Executando “The Death of Innocence”, “The Burning of Sodom”, “Death is Certain (Life is Not) e “No One Answers”, o Dark Angel mostrava que era uma grande promessa que se concretizava. Apesar dos rumos que banda tomaria no futuro, até aqui ela foi magnífica.

Fechando, temos o bom e velho (no bom sentido) power trio Raven. Diferentemente das demais bandas do vídeo, o Raven é focado no Rock/Heavy Metal – ou “Atlethic Rock” como eles diziam – e não fez feio. Pelo contrário, com seis álbuns nas costas e lançando o sétimo, a banda já era experiente e conhecida na cena, mesmo sendo Inglesa. Apesar de duas patinadas gigantescas nos anos de 85 e 86, onde lançou dois álbuns medíocres tentando penetrar no mercado americano (à época dominado pelo Metal Farofa, lembram?), a banda depois voltou aos trilhos e mostra isso no vídeo. Executando as faixas “Lay Down The Law”, “Into The Jaws of Death” (excelente!), “You Got a Screw Loose” e a Rock N Roll “Gimme a Break”, a banda cativa o público com um som energético e visceral. Formado pelos irmãos Gallagher (Mark na guitarra e John no baixo/vocais) e pelo baterista Jonh Hasselvander, o Raven é a única que se manteve ininterruptamente na ativa até os dias de hoje, e com essa mesmíssima formação.


Depois desse massacre sonoro, é fácil concluir que este “Combat Tour 2” honra com sobra o primeiro volume (famoso também como “Studio 54”), onde Slayer, Exodus e Venom fizeram história. São registros eternos de uma época rica e frutífera para o Metal mundial, onde nomes famosos surgiram e se tornaram verdadeiros ícones. Entre os que ainda estão na ativa e outros que já se foram, fica a certeza de que aqueles que estavam lá e viram isto ao vivo são verdadeiros privilegiados, pois fizeram parte da história do Metal.

FORBIDDEN

DEATH


FAITH OR FEAR


DARK ANGEL


RAVEN


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

METALEIRO

Se você tem bom humor e não é radical, pode rir com esse vídeo, que já nasceu clássico!!!! Tente passar imune ao nome da banda e a música que eles tocam, que é hilária!!!

sábado, 24 de dezembro de 2016

Resenha: Metallica - "Hardwired... to Self-Destruct"


Ao que parece, o Metallica quis justificar a longa espera desde o lançamento de “Death Magnetic” (2008), ao lançar, após 8 anos (!), não apenas um disco, mas um álbum duplo com 12 composições e quase 80 minutos de material inédito. Vários fatores que vão além da longa espera tornam este lançamento mais significativo ainda, como por exemplo os diversos formatos em que ele foi lançado (edições diferenciadas), o forte Marketing envolvendo seu lançamento e o uso massivo da Internet – vide o fato de que cada uma das 12 músicas teve um clipe lançado(!) no YouTube.  Não é preciso nem dizer esse Marketing todo deu resultados e o disco já aparece bem colocado em vários charts mundo afora. Afinal de contas, o Metallica já deixou o underground há muito tempo, navegando hoje em águas onde somente grandes bandas, como U2 e Iron Maiden, ousam flutuar. Mas, e o disco? Justifica o alvoroço?

A banda numa pose extremamente "underground"

Não é preciso nem dizer que os combates sangrentos entre fãs e “haters” já começou na Internet: uma parte adorou, dizendo que o Metallica renasceu e trouxe consigo a aura dos primeiros álbuns; outros alegam que se trata de mais do mesmo, que a banda não tem mais pegada e por aí vai. Lars Ulrich é um detalhe à parte, com uns exaltando sua performance, outros criticando até não poder mais. Antes de dar minha opinião, deixo claro que concordo os dois lados, não por ser indeciso, mas porque ambos estão certos. O Metallica de hoje não é o fundo do poço, mas também não é o salvador da pátria. Aliás, ninguém do Big Four, para dar um exemplo de impacto, é mais como era antigamente. O tempo passou, a idade chegou com pesos diferentes para cada um, e o direcionamento das bandas também sofreu mudanças. Ainda que lançando bons trabalhos, nenhum deles repetirá a inovação e o frescor de sua música da mesma maneira que nos 80´s. Com isso, novos trabalhos podem sim ser relevantes, impactantes, mas não inventarão a roda novamente. E é isso que também ocorre com o novo do Metallica.

Antes de mais nada, este novo álbum padece do mesmo problema dos “Load´s”: álbum de estúdio duplo – sim os dois “Loads” seriam sim um álbum duplo - mas a gravadora barrou a ideia na época, fazendo com que os lançamentos fossem simples e separados. Sábia decisão, pois a combinação muitas músicas + muito tempo de duração = qualidade irregular. É claro que existem lançamentos que refutam essa minha afirmação, mas a maioria se dá mal quando adota esta tática... Quem sabe apreciar os “Load´s” (como eu, admito) há de concordar que os dois discos, se unificados com as melhores músicas, dariam um puta disco, mesmo com a pegada mais Rock n´Roll não muito comum à banda. Com isso, “Hardwired...” também é longo demais e em vez de doze, se daria muito bem com menos faixas, condensadas em menos tempo. De cara, pelo menos 4 faixas desse trabalho são perfeitamente descartáveis. Antes que você, caro leitor, me xingue, permita-me apenas levantar uma questão crucial para reflexão: preste atenção se algumas faixas não estão calcadas na pegada dos “Load´s”, os discos que, atrás somente do “St. Anger”, são os mais execrados da banda...

Mas vejamos:
Das excelentes, 4 saltam aos olhos:  “Hardwired...”, “Spit out the Bone”, “Here Comes Revenge” e “Murder One”. As duas primeiras obviamente pela pegada mais Thrash e mais saudosista. O detalhe é que elas só não são melhores ainda por que Lars Ulrich está lá sentado naquele banquinho da bateria, mas falo mais sobre isso mais a frente. “Here Comes Revenge” é mais cadenciada e sensacional, com um riff espetacular e um refrão muitíssimo bem encaixado. O único porém é a marcação de bateria de Lars no início da música que é igual, igual a “Lepper Messiah”(autoplágio?). Curiosamente, também achei o melhor clip entre os doze feitos. “Murder One”, também com ritmo mais arrastado, fecha os quatro momentos espetaculares do disco. Vale salientar que o clip desta presta uma bela homenagem ao grande Lemmy.

Nos bons momentos, temos “Now That We´re dead” e “Moth Into Flame”. A primeira destaca-se pela intro diferente, sem Lars fazendo as mesmíssimas marcações na caixa, mas como disse, falarei do ruinzinho, quer dizer, baixinho mais para a frente. A faixa tem um estilo Load/Reload e o solo é bem bacana (uma raridade no álbum...) A segunda mostra a  busca do Metallica por refrões de impacto, como conseguido no Black Album. Nesta faixa em especial, foi que ficou legal, além da alternância de cadência e partes rápidas, com resultado satisfatório.

Metade do disco é bacana, mas a outra... “Atlas, Rise!” e “Confusion” são regulares. “Confusion”, em particular, é mais um caso - talvez poucos tenham percebido - de autoplágio. Neste caso, “Cyanide” do “Death Magnetic”. A estrutura da música é a mesma, com os versos em cima de uma base cadenciada, calcada num riff bem destacado (que aqui é legal até), mas que muda no refrão. Não precisa muito para se perceber a semelhança das músicas. A diferença que o refrão de “Cyanide” é bacana, mas o daqui é bem chatinho.

As quatro restantes são realmente fraquíssimas: “Halo on Fire” tem outro autoplágio (!), pois na qualidade de ser a semi-balada do disco, puxa o riff do meio de outra semi balada, “The Day That Never Comes” do “Death Magnetic”. Ouça e me diga se não são irmãs. Em tempo, esta aqui também tem refrão chato. A trinca “Am I Savage”, “Dream no More” (linha vocal horrível) e “ManUnkind” tem forte apelo Load/Reload, mas lembram o material ruim daqueles discos. Aliás, novamente digo: chega a ser curioso como parte das músicas deste disco tem influência de um material passado da banda que foi e até hoje é criticado, mas que aqui ganharem elogios...
    
Já mencionei que Lars não ajuda muito, certo? E não ajuda mesmo, uma vez que sua criatividade e uso de recursos são limitados, tornando as músicas previsíveis e pouco interessantes neste aspecto. Quer um exemplo: 1/3 das músicas deste álbum começam com marcações de caixa, e não é de hoje que ele faz isso com frequência. Quer outro? Não há uma música sequer em que ele faça uso do Ride, ou prato de condução. Para quem não sabe o que é, ouça a última vez em que ele fez isso em “Until It Sleeps”, do “Load”. Outra coisa: não espere encontrar em nenhum lugar destes 80 minutos, viradas de bateria que te deixem de queixo caído...


No fim das contas, é muito mais que um St. Anger, melhor gravado do que um “Death Magnetic”, mas não chega aos pés de um Kill Em´All”. Se você gostar do CD todo, ok. Se não, o bom dos dias de hoje é que você pode ter as músicas separadas (ITunes ou YouTube, por exemplo), pois aí você pega as melhores. Em qualquer opção, não será dinheiro ou tempo jogado fora, mas definitivamente não é o investimento num clássico ser lembrado por gerações futuras.

domingo, 18 de outubro de 2015

Top 100 - As 100 Melhores Músicas do Metal - Parte 5


Manowar / “Battle Hymn” / Album “Battle Hymn” – Faixa título do album de estreia dos americanos do Manowar e que cumpre fielmente o propósito de seu título, sendo um verdadeiro “Hino de Batalha”. É simplesmente impossível ouvi-la sem se imaginar em uma daquelas guerras antigas, montado em um cavalo e empunhando uma espada! Clima fantástico e com uma interpretação inspiradísisma da banda, em especial de Scott Adams, que canta de maneira emocionada (tente passar indiferente aos refrãos “KIll, Kill” e “Victory, Victory”, se puder), principalmente na parte acústica antes do solo. Destaque também para a bateria no final apoteótico, simplesmente maravilhosa e bombástica. Música pesada, linda e inspirada como poucas. Clássico!

Children of Bodom / “Every Time I Die” / Album “Follow the Reaper” – Algumas bandas obtem resultados surpreendentes com músicas mais arrasatadas, quando priorizam peso à velocidade. Nesta faixa, em especial, o COB conseguiu um peso avassalador, com um ritmo cadenciado mesclado aos velhos conhecidos teclados utilizados em larga escala pela banda, e que já são sua marca registrada. Destaque para o início da música, que, se ouvido no volume máximo, consegue tremer o chão!

Torture Squad / “Chaos Corporation” / Album “Hellbound” – Se o Dream Theater se tornasse uma banda de Brutal Death Metal, soaria como o Torture Squad. Falo isso por que a quebradeira dessa música é tão impressionante, usando tanta técnica, que só mesmo músicos gabaritados seriam capazes. O mais interessante é ver/ouvir blast beats (Almir Cristófaro é um monstro na bateria) entrecortados por partes técnicas, com muita precisão, aliados aos variados vocais de Vitor Rodrigues, que mistura de maneira magistral vozes graves, guturais e rasgadas, dando a impressão de que há mais de um vocalista na banda. Simplesmente fodástico!

Machine Head / “Imperium” / Album “Through Ashes of Empires” – Se cada estilo de Metal tivesse a sua “receita de bolo”, esta música poderia ser a receita do Thrash. Apesar do Machine Head ser uma banda que executa do um som mais moderno, as raízes de Robbin Flyn e o seu passado no fudidíssimo Vio-Lence emergem de vez em quando, dando vida a obras primas como essa. Trata-se de uma faixa longa, onde Flyn soube explorar partes mais lentas e rápidas, riffs clássicos de Thrash Metal, um refrão muito foda e variações espetaculares em meio a afinação baixa que traz o tom mais moderno já mencionado. É como se ele tivesse pego o que há de melhor nos elementos para se compor um música pesada e os uniu com maestria. No Fuckin Regrets!

Slayer / “Jihad” / Album “Christh Illusion” – Ah, Slayer... Como sempre a banda se mete a falar de algo que não deveria, mas é aí que saem os clássicos! Jeff Hanneman (R.I.P.) já havia cutucado com vara curta a onça do Nazismo em “Angel of Death”, e aí o fez de novo com o fanatismo Muçulmano em “Jihad”. Música rápida, porrada mesmo, com início de guitarra estranhíssimo para os padrões do Slayer (mas que tem tudo haver a temática) e um andamento meio dissonante das guitarras em relação a bateria na parte rápida, criando um efeito muito legal. A “paradinha” no meio da musica é simplesmente fuderosa e descamba nos solos velocíssimos, bem ao estilo da banda. Sozinha já vale o álbum!

Dark Angel / “Perish in Flames” / Album “Darkness Descends” – Na minha opinião, este album sempre esteve ao lado do “Reign In Blood” do Slayer, que é o álbum mais porrada do Thrash na história da humanidade. Digo isso porque “Darkness Descends” é duma velocidade tão absurda, uma porrada estonteante que realmente mereceria esta condição. A faixa em questão encerra o álbum como um soco no estômago, tocada na velocidade da luz, até mesmo nas partes mais lentas (?), com destaque para a bateria de Gene Hoglan, que simplesmente desce a mão sem dó e nem piedade. Apesar das letras enormes e da velocidade estonteante, o vocalista Don Doty acompanhava de maneira soberba essa correria toda. Indicadíssimo para quem gosta de Thrash bem porrada, sem piedade.

Holy Moses / “Current of Death” / Album “Finished With the Dogs” – Ainda no segmento Thrash + Porrada, o Holy Moses é uma banda alemã antiga (iniciou atividades na década de 80 e ainda está na ativa), mas que tem o diferencial de ter sido uma das primeiras com uma mulher nos vocais e fazendo um som mais pesado e rápido. Nesta faixa, em cima de um Thrash hiper rápido, Sabrina Classen urra (!) furiosamente e acompanha uma banda afiada. Mesmo no meio de tanta pancadaria, eles conseguiram enfiar um ôôôôô no refrão, que ficou muito legal. Para quem acha que Angela Gossow (ex-Arch Enemy) é pioneira de mulheres urrando, vale conferir quem realmente o fez.

Morbid Angel / “Sworn to the Black” / Album “Covenant” – Se alguém mostrou ao mundo que o Death Metal não é apenas um estilo para os fortes, mas também para os músicos talentosos, esse alguém é o Morbid Angel. “Sworn to the Black” é uma música absurdamente técnica, com ritmo mais cadenciado e quebradas sensacionais, mostrando uma banda entrosada e afiada. Destaque para Pete “Commando” Sandoval, que aqui comanda (desculpe o trocadilho) o ritmo da música com soluções rítmicas impressionantes, aliado aos vocais de David Vincent, cavernosos como sempre. Mesmo sem ser na velocidade da luz, a banda mostra e confirma seu domínio absoluto quando se fala em Death Metal.

Deathrow / “Satan´s Gift” / Album “Satan´s Gift/Riders of Doom” – Já mencionei essa banda na parte 4 desse Top 100, com uma música do seu segundo álbum. Essa aqui é do primeiro, onde a banda era bem crua e o som mais porrada. E para quem gosta de bateria, esta música bate alguma espécie de recorde em termos de quantidade de viradas (cortesia do batera Markus Hahn), o que a torna ainda mais fantástica. Somado a isso, os riffs são velocíssimos e o refrão é muito legal. Imperdível.

Helloween / “The Dark Ride” / Album “The Dark Ride” – Como a fase Michael Kiske é simplesmente fantástica e tudo dela é sensacional, coloco a última grande música feita dentro da fase do seu sucessor, Andi Deris. Na minha humilde opinião, esta é uma música que teria lugar dentro dos “Keepers”, tamanha a sua qualidade em aglutinar todos os elementos do melódico que o Helloween criou e que todos copiaram depois. Instrumental impecável, solos dobrados, refrão bacana, variações de andamento muito bem encaixadas são algumas das qualidades desse clássico. Apesar de ser a faixa título de um álbum injustamente criticado como sombrio e longe do estilo alegre da banda, representa o fim da fase criativa e inspirada, caindo na mesmice nos álbuns seguintes. Mas esta música é apenas foda, merecendo ouvidas seguidas!

sábado, 22 de março de 2014

Vídeo: MORBID ANGEL "Rapture"

Vídeo: ACCEPT "Teutonic Terror"

Vídeo: TESTAMENT "Native Blood"

Mistério Revelado: Lars Ulrich é Peter Criss!


Finalmente descobri a razão do Lars Ulrich ser um baterista tão criticado: ele é o Peter Criss! Chocante, não? Infelizmente é a verdade, e descobri isso enquanto ouvia a música nova do Metallica, “The Lords of Summer” (que titulozinho esse...), amplamente divulgada na Internet essa semana. A musica – que tem um riff inicial espetacular, cortesia do gênio e grande guitarrista base que James Hetfield é – não é ruim, mas também não saiu melhor porque Lars Ulrich cismou que é o Peter Criss, e pra isso, ser um músico virtuoso não é exatamente o objetivo de vida dele na carreira nos dias de hoje... Para que não fique apenas nas minhas palavras, segue a versão de estúdio, mas me diga se não tenho razão nas linhas mal escritas abaixo...


Não é de hoje que Lars Ulrich é criticado e mais malhado do que Judas por conta de sua performance tanto em estúdio, quanto ao vivo. Já escrevi sobre o assunto em outras oportunidades, mas com essa música nova, surgida na sequência de um álbum que foi a redenção para a banda (“Death Magnetic”, de 2008), me deu uma certa expectativa se a banda voltaria mais furiosa e com um acento ainda maior do Thrash do passado, o que infelizmente não ocorreu. E detalhe: não vai ocorrer mais, pelo menos enquanto Lars Ulrich for o baterista do Metallica. Como disse no início do texto, hoje ele está para o Metallica, como Peter Criss era para o Kiss: um membro original, mas com extrema limitação técnica.

É claro que as situações não são exatamente iguais, mas a similiridade é grande. Peter Criss, baterista original do Kiss, deu a sorte de estar no lugar certo, na hora certa. Entrou para a banda que mudaria os rumos do Rock da época, fez sucesso, fez milhões, tudo isso em troca de uma bateria extremamente medíocre (tudo bem que o som do Kiss não era complexo e técnico, mas imaginem um John “Bonzo” Bonham maquiado e descendo a lenha naquele kit!). Outra diferença é que Peter Criss apitava muito pouco ou quase nada no direcionamento do grupo, uma vez que isto ficava ( e ainda fica) a cargo dos sócios Genne Simons e Paul Stanley – ao passo que Lars comanda o leme do Metallica desde o início.  A realidade é que as drogas tiraram Peter Criss do Kiss – e em mais de uma oportunidade, diga-se de passagem – uma vez que sua atuação era satisfatória para o que o som pedia, não demandando que um baterista técnico demais estivesse atrás das baquetas. Entretanto, para quem curte batera, como eu, era e é difícil ver alguém como ele tocando: basta pegar os vídeos antigos da banda e ver quão simplória era sua técnica. Mas me dói mesmo ouvir uma das minhas músicas preferidas (“God of Thunder”, versão ao vivo no “Alive II”) ser interrompida para um dos mais bisonhos solos de bateria já feitos na história do Rock. Os anos se passaram e, depois de vários chutes na bunda, Eric Singer (esse sim baterista de verdade) assumiu o comando das baquetas do Kiss e hoje ele segue feliz, soando muito melhor do que no passado. No caso de dúvida, basta comparar o desempenho de ambos no acústico da MTV, onde os dois tocam separados e depois juntos no mesmo show.

Voltando ao Lars Ulrich, fica muito difícil vê-lo fora do Metallica, com um outro baterista em seu lugar, mesmo de técnica superior, por várias razões.

A primeira, o fato de ser um membro fundador - lembrem-se que a formação clássica foi  diferente da inicial e só apareceu no “Kill ‘Em All”, já algum tempo depois , face as saídas de Ron McGovey e de Dave Mustaine . Isto pesa muito, uma vez que ele e James Hetfield formaram o embrião do grupo e o carregaram nas costas de desde então, ou seja, desde os idos dos anos 80.

A segunda razão, gira em torno do fato do Metallica ter três albuns simplesmente essenciais e revolucionários dentro da música pesada, com Lars sendo participante ativo da composição deles. Se você hoje pode ouvir hinos como “Hit the Lights”, “Creeping Death” ou “Damage Inc”, agradeça a inspiração dele com Hetfield, e num segundo plano, com uma participação (menor), de Kirk Hammet e Cliff Burton Estes álbuns foram lançados no ápice do Thrash americano, em especial no movimento que se formou na Bay Area onde diversas bandas ajudaram a moldar o estilo seguindo os passos de Slayer, Exodus e, claro, do Metallica.

A terceira razão, assim como Gene e Paul no Kiss, Lars transformou sua banda num negócio milionário, capaz de pagar a um novo integrante, recém chegado  (Rob Trujillo, baixo), a título de motivação, a bagatela de 1 milhão de dólares(!). Quem quiser conferir esse momento mágico – para Rob Trujillo, é claro – basta checar o documentário “Some Kind of Monster”, que retrata a época nebulosa da saída de Jason Newsted, a gravação de “St Anger” entre outros dramas que a banda sofria naquele período. Em suma, Lars, além de baterista, é o homem de negócios da banda, o que para mim, numa opinião particular, é a causa da sua queda de rendimento.
Se olharmos bem,  dos primeiros anos da banda até o período do ao vivo “Live Shit: Binge and Purge”,na turnê do Black Album , veremos que Lars ainda era um batera competente, com parte disso devido ao entusiasmo e desenvoltura com que ele tocava, algo muito diferente da postura reta e monótona de hoje. A partir do Black Album, banda começou a vender milhões de cópias e se tornar gigante no mundo todo, atingindo o tão sonhado “mainstream”. Note-se que, depois do sucesso desse disco, a banda soltou na sequência dois discos que foram sinônimos, entre outras coisas, de simplicidade do som. “Load”e “Reload” abraçaram uma veia mais Rock n´Roll e deixaram muito de lado o Thrash Metal de outrora, mostrando uma banda muito diferente, inclusive no visual. Foi o começo do fim para Lars, que dali para a frente apresentou uma decrescente de performance, principalmente ao vivo, onde começou a mudar os arranjos das músicas mais antigas, tornando-as mais simples de uma maneira muito negativa. Nas mais velozes, era (e ainda é) nítida a sua dificuldade em manter a pegada com dois bumbos. Um detalhe interessante (e que os bateristas entenderão) é que Lars simplesmente aboliu do seu kit qualquer prato de condução, tirando a identidade de músicas com “Hits the Lights” (toda) ou “No remorse” (o final, a parte rápida).

É óbvio que a banda ainda move multidões, lota estádios, mesmo com Lars fazendo seu arroz com feijão, tal qual o Kiss fazia com Peter Criss no passado. Entretanto, é impossível não pensar como seria a banda (principalmente) ao vivo, com um baterista melhor. Qualquer músico que se preze, baterista então, não pode se dar ao luxo de relaxar em termos de técnica, a menos que seja um Neil Peart ou um Mike Portnoy da vida (esses não são desse planeta!). Ao ouvir essa música nova, fica claro que a banda até tenta resgatar o passado e fazer algo  mais “Old School”, mas vai empacar no eu baterista, que optou pelos negócios e hoje é melhor contando dinheiro do que dando viradas no seu instrumento. Alguém falou em Dave Lombardo aí?


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rock in Rio 2013


Fim de Rock In Rio 2013! Entre mortos e feridos – sim, porque algumas coisas foram realmente ruins de matar – tivemos 2 dias dedicados à música pesada, o que foi muito bom. Eu diria que, mesmo com alguns equívocos, esta edição teve o melhor cast de Metal (sem contar 1985, é óbvio)  até hoje. Talvez o ineditismo de algumas atrações tenha tido maior impacto, mas a verdade é que o ecletismo obtido agradou a quase todos os fãs dos vários subgêneros em que o Metal se divide. Foi realmente gratificante ver Slayer, Metallica, Iron Maiden, Destruction, Krisiun, Helloween, Rob Zombie e Ghost juntos num festival que, apesar do Rock no nome, nunca achamos que chegaria a tanto. A presença de atrações mais underground realmente nos anima para o que possa vir nas edições futuras, tornando tudo ainda mais atraente para os fãs do bom e velho Rock n´Roll.


Individualmente, algumas coisas foram espetaculares, outras nem tanto, outras realmente ruins. Na minha humilde opinião, o festival foi assim:


O Slayer, para quem é fã (como eu) é algo que extravasa o conceito de banda, sendo quase uma entidade sobrenatural. Mesmo sem Jeff Hanneman que nos deixou recentemente e sem a lenda das baquetas Dave Lombardo, o Slayer mostrou porque ainda é uma banda respeitada na cena, mesmo com 30 anos de Thrash nas costas. Contando o lendário Gary Holt na guitarra e o novamente substituto de Lombardo, Paul Bostaph, a banda fez um set destruidor. Mesmo que isso soe ofensivo para alguns, mil vezes melhor que o Metallica... Sobre este último, já dediquei um post só para eles, visto tratar-se de um caso especial e um mistério para mim...


O nosso bom e velho Maiden veio pela 3ª vez! Não há muito o que falar, pois mesmo com as reclamações que já estamos habituados a fazer sobre os set lists da banda, onde ela deveria ter tirado isso e colocado aquilo, o show é espetacular. Mesmo cinquentona/sessentona, a banda ainda arrasa no palco e toca maravilhosamente bem, isso sem falar no show cenográfico que sempre surpreende a todos. Nota 10 e pronto.


O Ghost é uma banda que tem dividido opiniões e eu particulamente gosto muito. Os caras não inventaram a roda, o som não é novo, mas agradável, cativante e somado ao Marketing da banda, chama a atenção. Só acho que o show do grupo, sua apresentação em si, não funcione em grandes arenas, sendo mais eficaz em lugares menores. Foi o que houve aqui, com o grande distanciamento do público e banda não proporcionando a quem não conhecia a real ideia da proposta do grupo.  Respeito quem não gostou – realmente não é fácil assimilar de cara aquele show extremamente parado – mas particularmente achei sensacional.

O grunge passou e poucos sobreviveram: o Alice in Chains que o diga, mesmo porque seu vocalista original, Layne Stanley, já passou dessa para melhor. Trocadilhos de humor negro à parte, a banda se manteve e continua na estrada até hoje. Não é muito minha praia, acho deprê demais, mas algumas músicas são muito boas como Would, Angry Chair, Man in the Box e outras mais. Tem seu público e foi uma boa escolha.

O Avenged Sevenfold tem mais ou menos 14 anos de estrada, sendo uma banda nova e com moderno, bem ao gosto da molecada de hoje. Não conheço quase nada e o pouco que vi me parece meio indefinido, pois os caras não sabem se são rápidos ou mais lentos, mais pesados ou mais melódicos, enfim: a garotada curtiu, mas eu, nem tanto. Teria sido mais interessante ter visto na fase com Mike Portnoy (ex-Dream Theater) nas baquetas.


Falar o quê do Sepultura (ou Zépultura, como andaram falando ao longo do festival)? O que falar de uma banda que acha a 8ª maravilha do mundo pegar “Vida de Gado” ( clássico da MPB), botar uma base pesada no fundo e o pobre do Zé Ramalho que se vire pra cantar? É claro que ele não o fez obrigado, mas desde que o Sr. Andreas Kisser botou na cabeça de que é um músico “plural”, parcerias estapafúrdias como essa se tornaram rotineiras. Uma pena, pois desde que criaram a expressão “viúvas do Max”, a gente não pode dizer que a banda nunca mais fez nada que preste e que hoje é pateticamente ruim. Assim sendo, não vou dizer nada disso.


Destruction e Krisiun detonaram o palco Sunset com o que há melhor no Underground: O thrash dos anos 80 e o Death Metal, ainda que na sua vertente mais moderna, tocado na velocidade da luz. Foi fora do comum ver a intro de “Curse the Gods” echoar nos PA´s, com a banda entrando em seguida, com a mesma postura de estar tocando num Wacken, onde a banda é sempre presente. Set maravilhoso, até mesmo nas composições mais recentes. Junto do Krisiun, tocaram “Black Metal” do Venom e a fudidíssima “Total Desaster”. Surreal!


André Matos e o Viper fizeram bons shows, primeiro André com sua carreira solo, acrescido de sons do Angra e Shaman, depois o Viper, com sons apenas do 2º álbum “Theatre of Fate” e do “Evolution” (fase sem André nos vocais). Como disse, bons shows, nada mais. Na minha opinião, essa onda de saudosismo não funciona com certas bandas, e para mim, não sei a razão, o Viper é uma delas.


Helloween com Kay Hansen prometia ser algo mágico, mas não foi por duas razões: a primeira, Andy Deris ainda teima em (tentar) cantar o material de Michael Kiske. Simplemente não entendo como alguém não chega para ele e diz que não funciona e pronto. Se querem um exemplo apenas, basta checar os minutos finais de “I Want Out” e ver que aqueles pulmões quase explodiram... A segunda razão é que chamaram Kay Hansen para tocar guitarra apenas , ao passo que se ele pegasse o microfone do Andi Deris (para ele respirar um pouco até) e cantasse “Victims of Fate” ou “Gorgar”, seria perfeito!  De saldo, apenas as músicas mais recentes da banda, que dão para o gasto e Andi não morre ao tentar cantá-las.

Dr. Sin é uma banda guerreira. Tão guerreira, mas tão guerreira, que só falta alguém avisar a eles que eles tem de ganhar também, e não só lutar. Não me levem a mal, conheço pouquíssimas músicas dos caras e não estou dizendo que eles são ruins, mas o fato é que eles estão aí há anos e não chegaram a lugar nenhum... É uma pena, mas é assim que vejo a carreira deles. Pelo menos chegaram no RIR e mandaram ver. Pelo menos os 5 minutos que assisti....

E aí chegamos ao Kiara Rocks... Uma polêmica tremenda envolveu a banda antes e após sua apresentação no festival, mesmo porque ninguém sabia que diabo era isso, e daí a coisa piorou quando se soube que diabos eles eram... Vamos por partes: o fato da banda ser nova (3 albuns apenas), brasileira e desconhecida do grande público não é crime algum. Pelo menos da parte deles, mas sim de quem os escala em um palco principal, antes do Slayer. Soube-se depois do dedo (podre) da Sra Monika Cavalera (ex- Igor Cavalera), que empresaria os caras e conseguiu “encaixá-los” na grade do festival. Isso só tira a credibilidade da proposta do RIR, que prima pelo “jabá” em detrimento do bom senso. Rob Zombie teria sido uma escolha trinta e cinco milhões de vez melhor, mas optou-se em colocá-la no placo Sunset , enquanto os criminosos do Kiara Rocks burlavam a lei no palco mundo... Lembro a todos que o Glória, que fez o mesmo papel na edição de 2011, também estava sob a batuta da referida empresária...


Com relação aos covers, uma verdade tem de ser dita: se o Metallica abrisse o seu show com “Am I Evil?” do Diamond Head, todo mundo ia gostar, não é? A única diferença é que o Metallica é uma mega banda e pode fazer o que quiser da vida, já o nosso KR... Agora, se você só tem 3 discos que ninguém ouviu e ganha a chance de tocar num RIR com transmissão nacional, vai começar mostrando que conhece Motorhead? É claro que não!!! Mas o pior de tudo foi chamar Paul Di’Anno ao palco para cantar cover do Iron Maiden no dia do show do... Iron Maiden! Era o mesmo que escrever naquele telão imenso atrás do palco “POR FAVOR, GOSTEM DA GENTE”. Patético até dizer chega... Ah, quase me esqueço: o material próprio da banda também é uma merda mesmo. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Metallica e Mais do Mesmo 2013


Um dia após o show do Metallica no Rock in Rio 2013, estava eu ao telefone com um amigo, que me contava que havia ficado até as 3 da matina vendo o show da banda. Obviamente ele ficou encantado, me dizendo que o show da véspera havia superado em muito o show de 2011. Eu, por minha vez, contava que até esperei a banda entrar, mas antes da 1ª primeira música terminar, eu já havia desligado a TV e ido dormir. É claro que gravei o show e vou assisti-lo assim que possível, mas esta diferença de prioridades entre eu e meu amigo deixa claro que a banda, atualmente, já não é mais relevante para mim, com outros grupos antigos e até mesmo alguns novos que me encantam muito mais.


Não estou querendo dizer que o Metallica seja ruim ou não tenha o seu valor, muito pelo contrário, ouvir os seus cinco primeiros álbuns são um verdadeiro prazer para qualquer um que ama música pesada. Vale ressaltar que, clássicos mesmo, apenas e tão somente os 3 primeiros (“Kill ‘Em All”, “Ride the Lightning” e “Master of Puppets”) com os 2 seguintes (“... and Justice for All” e “Metallica”) sendo excelentes, mas num patamar inferior aos seus  antecessores. Tudo o que veio depois deles só mostrou a banda numa inconsistência qualitativa, onde surgiram albuns menos inspirados e alguns polêmicos até. A dupla “Load” e “Reload” até hoje divide opiniões, ao passo que “St. Anger” é quase uma unanimidade como pior disco de toda a carreira (creio que até na própria banda, que não executa nada desse disco ao vivo). O que acontece é que, comercialmente, a banda explodiu com “Metallica” e de lá para cá atingiu outros públicos, chegando ao tão sonhado “mainstream”. Nessa crescente de sucesso, dinheiro e fama, o Metallica atingiu o status de megabanda, aquela que pode fazer o que quiser da vida, em um auge artístico semelhante ao do U2, para citar um exemplo.


E é por conta dessa trajetória de sucesso – merecido, diga-se de passagem – que hoje já não me empolgo pelo que a banda faz atualmente. Com todo o sucesso veio uma acomodação quase que óbvia, com toda aquela fúria inspirada e empolgante do início dando lugar a discos e shows burocráticos. É claro que nenhum disco novo será passível de comparação com os do início de carreira, afinal, nunca mais a banda lançará um “Master of Puppets” novamente, isso é certo. “Death Magnetic” é um bom disco, mas nada mais que isso, e o próximo provavelmente também o será: entretanto, minha esperança era de que os shows continuassem empolgantes, mas isso não acontece. O show de ontem do RIR reforçou a minha percepção de que o Metallica hoje é como um Chef que tem os melhores ingredientes a sua disposição, mas não sabe mais como fazer um prato saboroso.


Individualmente, apenas James Hetfield consegue manter o espírito do passado vivo em termos de postura, embora sua performance (vocal) nas músicas antigas não seja mais a mesma. Melhor dizendo, trata-se de uma performance sem aquilo que chamamos de “sangue nos olhos”. Como músico, James continua um dos maiores guitarristas base do universo Thrash, com uma mão direita absurdamente rápida e precisa. Seu único problema é a mudança das linhas vocais no material antigo, mexendo no que é intocável. É claro que o tempo passou e o cara envelheceu, sendo impossível manter o mesmo timbre de adolescente; mas mesmo assim, não é difícil tentar manter-se fiel a agressividade natuarl que aquele matéria contém.

Quanto a Kirk Hammet, este continua sendo o zero a esquerda que sempre foi na banda, limitando-se a ser o excelente guitarrista que é. Para quem tem dúvidas, isso fica explícito no documentário “Some Kind of a Monster” onde o guitarrista simplesmente não tem voz nenhuma dentro da banda, sendo Hetfield e Lars Ulrich os donos da bola. Ao vivo, continua competente como sempre foi, e agora que abandonou o visual andrógino da época dos “Loads”, a coisa melhorou ainda mais.

Deste modo, o problema do Metallica, ao vivo, está na cozinha da banda, ocupada por Robert Trujillo e Lars Ulrich. No baixo, uma coisa é certa: Jason Newsted faz uma falta dos diabos, seja na pegada, seja nos back vocals sensacionais que fazia e que ajudavam muito nas músicas (alguém falou aí “Creeping Death”???). Robert Trujillo é um excelente baixista, só me parece ser técnico demais e muito cheio de firulas em cima do palco, destoando da banda. Jason, além da postura agressiva e perfeita ao completar a linha de frente da banda, tinha um estilo mais ligado a Clff Burton do que Trujillo, e isso era um baita diferencial. Agora, sejamos francos, você ir assistir ao show do METALLICA e ter de ver o baixista de Maria Chiquinha é um pouco demais, não? Atitude, minha gente...

Agora, o calcanhar de Aquiles da banda chama-se, sem dúvida nenhuma, Lars Ulrich. Embora seja o criador do Metallica (lembrem-se de que foi ele que pôs o anúncio num jornal e que o colocou em contato com Hetfield, dando início a tudo) e responsável pelo gigante que a banda é hoje, Lars é um caso raro de músico que retrocedeu: se você observar sua performance nas baquetas do início até os dias de hoje, vai encontrar um músico que ficou preguiçoso e que não executa suas próprias músicas da maneira como as gravou. Isso mencionar que o material mais rápido, principalmente com pedais duplos, são reproduzidos hoje em dia com dificuldade, com as músicas estratégicamente intercaladas no set list, de modo haja um tema mais lento entre elas. E aí, minha gente, idade não é desculpa: Dave Lombrado (ex-Slayer) tem mais ou menos a mesma idade de Lars e ainda hoje em dia continua um monstro tocando.

Somado a todos esses argumentos, teve mais um detalhe me incomodou muito: o show do RIR 2011 compreendeu a turnê do “Death Magnetic”, lançado 3 anos antes (!). Naquela época, a banda já me parecia no piloto automático e não me encantou muito. Passados 2 anos daquele show e 5 anos do lançamento do disco, a banda dá continuidade a mesma turnê com um show exatamente igual, excetuando-se eventuais alterações nos set lists executados. Em termos de show, o que vimos em 2011 é a mesmíssima coisa que vimos ontem, onde até o palco acabou ficando parecido. Este o tipo de coisa que com certeza não veremos com o Iron Maiden, que mesmo tendo se tornado uma banda assídua no Brasil, varia bem o show que faz por aqui, tanto em palco, quanto em músicas (ainda que algumas NUNCA saiam dos seus set lists).

Quero deixar claro meu respeito por quem gosta da banda e ainda a acha relevante. O importante é que os caras continuem fazendo Metal de qualidade, mesmo com os contras que relacionei acima. Entretanto, acho importante elencar algo que muitas das vezes o fã cego não quer enxergar, simplesmente por conta da devoção exagerada que tem a um determinado artista. E aí, também temos de citar a mídia, que com a mesma facilidade que destrói carreiras, também cria mitos, lendas, transformando meros mortais em deuses, merecedores ou não. Isso tem uma influência muito forte na cabeça da molecada e impede que ela pense diferente pelo simples fato de que estaria remando contra a maré do gosto geral. Já imaginou você ter coragem de dizer que “Through the Never”, o novo filme/documentário em 3D do Metallica, que custou a bagatela de $ 80 milhões é uma porcaria?



Jeff Hanneman, Slayer e ... Futuro?


Mesmo com o Slayer chegando ao Rock in Rio e passados pouco mais de quatro meses, ainda é difícil de acreditar: Jeff Hanneman morreu. Uma das cabeças mais criativas de uma das bandas mais espetaculares do planeta se foi, sem mínima chance de que alguém o substitua a altura. Obviamente, colocar outro guitarrista ao lado de Kerry King pode ser feito, ou melhor, já o foi, na figura do lendário Gary Holt. Pode ele tocar o que Jeff tocava? Claro que sim, pois além de sensacional guitarrista, tem o mesmo background e, como se isso não bastasse, mantém na ativa outro nome essencial do Thrash americano, o Exodus. O problema é que ninguém conseguirá compor o que Jeff compunha: Holt é a cabeça pensante do Exodus, que tem o mesmo estilo, mas não é igual ao Slayer. O gênio musical que Jeff era em parceria com King ou então sozinho não se repetirá, ou alguém ainda acha que existe outra mente brilhante no cenário para nos dar uma nova Angel of Death?


O mais curioso é que achamos que nossos ídolos são “Highlanders”, imortais, de existência eterna tal qual o filme. Quando acontece, é um choque maior do que o normal, pois mexe com uma realidade que o fã julga imutável. Passei algo semelhante em minha vida somente com a morte de Chuck Schuldiner, do saudoso Death. E olha que a doença dele já era de conhecimento geral,  mas isso não impediu o baque de perder um grande músico, e mais, uma banda sensacional, já que sem Chuck o Death simplesmente não poderia existir. Jeff, por sua vez, apesar do problema da picada da aranha e da necrose no braço, vinha se recuperando e a qualquer momento poderia voltar à banda, já que era (e ainda é) claro que Gary Holt era um músico contratado. Além disso, Gary sempre afirmou, desde que entrou na banda para segurar as seis cordas enquanto Jeff não voltava, que sua prioridade era o Exodus e que não o trocaria pelo Slayer. Mas voltando ao paralelo com Chuck e o Death, pode o Slayer existir sem Jeff Hanneman?

Esta resposta não parece ser um dilema para a banda, que manteve Gary Holt no posto e continua em turnê promovendo o já não tão recente  “World Painted Blood”, último álbum a contar com Jeff. Bem antes de sua morte, a banda já estava compondo um novo disco, com King assumindo sozinho as composições, uma vez que não se sabia se Jeff retornaria a tempo e se traria material pronto (em declarações recentes, King afirmou que Jeff se isolou após o acidente e que era difícil ter alguma noção do seu real estado). Ainda não há noticiais sobre este disco novo, mas a banda continua em frente, mesmo somando-se a baixa ocorrida antes da morte de Jeff, a do baterista Dave Lombardo, demitido por King face divergências contratuais (leia-se “dinheiro”). Para o lugar de Lombardo chegou-se em definitivo ao nome de Paul Bostaph, que já havia substituído Dave no passado e ficou na banda durante 10 anos. Com o time reformulado, os remanescentes King e (Tom) Araya, vão manter o Slayer na ativa.

Particularmente, tenho uma opinião curiosa: acho o Slayer uma banda tão espetacular, tão sensacional, que deveria parar no auge. Não no passado, onde a banda teve anos áureos nos anos 80, se tornando grande não só nos EUA, mas no mundo todo. O lançamento de “Reign in Blood” foi o primeiro ápice, e quando falo em auge quero dizer nos dias de hoje, onde a banda, depois de atravessar todos os percalços da indústria musical sem fazer concessões, integra e bem sucedida na sua proposta. E este auge chegou novamente com “World Painted Blood”, com o caminho que foi tão bem pavimentado pelo seu antecessor, “Christ Illusion”. Para uma banda que meio que se perdeu (não ficou ruim, de forma alguma, somente se tornou mediana) nos dois álbuns anteriores a esses (“Diabolus in Musica” e “God Hates Us All”, extremamente influenciados pelo metal moderno americano), o retorno grandioso com “Christ Illusion” foi arrebatador, mesmo porque estamos falando de uma banda com 30 anos de estrada e que ainda detona e cima do palco como em início de carreira! A sequência com “World Painted Blood” selou de vez este bom momento da banda, uma vez que a idade chega e começa a pesar para um estilo de música tão extremo. Deste modo, entre começar a fazer álbuns meia boca – pare para pensar e tente encontrar um álbum ruim do Slayer nos moldes do “St. Anger” do  “maravilhoso” Metallica – e encerrar a carreira em grande estilo, sou da segunda opção. Isto se tornou mais plausível depois da saída de Dave e agora ainda mais com a perda de Jeff. Falo sério quando digo que não gostaria de um novo álbum, ainda mais sem a mão de Jeff nele, mesmo que Kerry King seja a outra metade das composições clássicas da banda. E sem Lombardo nas baquetas para dar vida a essas criações com suas viradas alucinantes, a coisa fica muito pior. Mesmo que os músicos substitutos sejam maravilhosos, o que vemos no palco hoje não representa o Slayer que mudou a minha juventude e a de muita gente também. Aquela  banda que me assombrou em 1985, quando ouvi pela primeira vez o “Hell Awaits”, hoje só pode ser vista junta lá, na contra capa daquele e de outros clássicos que se seguiram.
 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Metal Mundial em 2013: O Que Ainda Falta Conquistar?



Antes de mais nada, quero deixar claro que este texto não é fruto de alguém que não curte mais Metal, pelo contrário: minha paixão pelo estilo ainda é a mesma. A única diferença é que o tempo passou e sinceramente me preocupo com que o futuro reserva para o estilo musical mais fantástico desse planeta. Tampouco também sou um saudosista inveterado, pois mesmo com o passado sendo maravilhoso, a busca por novidades é vital para a renovação e evolução musical de cada um.

Com 25 anos de Metal pesado na bagagem, não é raro eu me ver pensando em como o Rock Pesado mudou nesses anos todos. As novidades, os clássicos, os fracassos, as decepções, as surpresas, enfim, todos os altos e baixos que o estilo teve, tem e provavelmente terá no futuro. Mas esta é a real razão dos meus pensamentos mais profundos: se o estilo passou por tanta coisa enquanto se desenvolvia e consolidava, o que o destino reserva para ele agora que se encontra estabilizado, definitivamente estabelecido como um grande negócio e com um grande público? Como ficará depois que a geração atual – que sedimentou a base dos anos 80 para cá, for embora, deixando um cenário onde não há mais espaço para muita novidade? Será a nova geração capaz de reinventar o estilo? Questões como essa bombardeiam minha mente no momento em que muitas das novas bandas não conseguem mais chamar minha atenção, uma vez que o que se tem é mais do mesmo, sem nada de novo. Ou, fazendo uma analogia culinária, que apresente a comida requentada, mas pelo menos saborosa.

Quem se encontra na faixa dos 40 anos, como eu, já deve ter entendido muito bem o espírito contido no início deste texto.  A diferença do cenário de 1983 e o de hoje não se mede apenas pela quantidade de anos que se foram, mas por toda uma cultura que mudou de forma drástica, afetando seriamente os rumos do estilo. Cito um ponto pelo exemplo contido na biografia “O Reino Sangrento do Slayer” (Mclver, Joel - 288 páginas, Edições Ideal), onde, em diversos momentos, encontramos referências ao “Tape Trading”, largamente praticado naquela época, e que nada mais era a troca de fitas K7 com demo tapes, bootlegs ou lançamentos oficiais, e  que os fãs faziam entre si com fins de aumentar o arsenal de discos e de conhecimento de bandas. Em tempos sem Internet, era isto que conectava fãs e, por incrível que pareça, mantinha uma cena (underground, é claro) unida e forte, tendo sido a base de sucesso de muitas bandas grandes hoje. Imagine um mundo sem sites das bandas, “Youtubes” ou “Myspaces”, onde você só podia obter informações e as novidades pela troca de fitas, pelos fanzines e, é claro pelos shows. E em maior ou menor escala isso aconteceu em vários lugares do mundo, inclusive aqui no Brasil. Rio de janeiro, São Paulo e Minas foram os centros catalisadores de um movimento que gerou grandes bandas, sendo a principal delas o finado Sepultura (desculpem a ironia e o trocadilho, mas...). Esperar um colega comprar um importado e depois copiar em fitas K7 até dizer chega era algo comum na época, onde até algumas lojas faziam isso(!) por um valor mais em conta. Em resumo, era uma época em que as coisas eram muito mais difíceis, demandavam muito mais esforço, mas contava com a paixão e o envolvimento de quem tinha amor pelo estilo e queria ver a coisa acontecer.

Passado o tempo, o reconhecimento veio e alguns nomes transpuseram a barreira comercial imposta pelo “mainstream”, onde o lixo pop imperava e o Metal era considerado coisa de vagabundo. Em seguida, veio a Internet e, na minha opinião, foi aí que a coisa ao mesmo tempo teve um impulso muito grande, mas também teve fim... O advento da tecnologia, com o passar do tempo, obviamente foi positivo: equipamentos melhores, melhores estúdios, melhores profissionais e etc.. Estes foram fatores que aumentaram o nível qualitativo das bandas, somando-se ao próprio talento delas e sua evolução musical. Com a Internet, a divulgação das bandas se tornou mais fácil, mais rápida, independente do lugar do mundo onde se estivesse. As novidades chegavam quase que instantaneamente para todos e os fanzines de outrora deram lugar a sites especializados; as fitas K7, soberanas durante anos deram lugar a sites onde áudio e vídeo podiam ser divulgados livremente; o vinil, alvo das coleções dos headbangers  no mundo todo deu lugar ao CD, que depois deu lugar ao MP3, que trouxe de bandeja a pirataria, onde a música não tinha mais dono.  Até mesmo as gravadoras, entidades máximas e supremas do meio musical, sucumbiram diante da fúria da revolução da Internet.

Mas onde entram as pessoas nessa história toda? O que houve com aqueles fãs ardorosos que mantinham a cena lá no início? Simplesmente se adaptaram, como este que vos escreve. O romantismo de uma cena embrionária deu lugar a algo profissional e sofisticado, que facilitou a vida de todo mundo e este talvez tenha sido a derrocada de um estilo que sempre foi caracterizado pela sua paixão. Deixo claro que não estou dizendo que o fã de Metal hoje não tenha paixão, não se trata disso: o que estou dizendo é que hoje tudo é muito fácil, e essa facilidade gera quantidade, que não é sinônimo de qualidade. Também não estou dizendo que o mundo era melhor quando tudo era mais difícil, mas que hoje não há mais o impacto do passado, isso não há. Como exemplo, me  lembro até hoje de  como conheci o Slayer: um amigo me levou a um Shopping (Rio Sul, construído em 1980) e fomos a uma loja de discos, onde ouvimos juntos, em uma cabine (!), um vinil pirata do “Show No Mercy”. A capa era tosca, preta, com a logo e o bode reduzidos no centro, a contra capa era sem fotos, somente com o nome das músicas. O disco não tinha selo nenhum e hoje, com certeza, é item de colecionador. Só me lembro que era caro e umas poucas cópias circularam por aqui. Hoje, você entra na Internet, baixa o disco, capa, contracapa, encarte e tudo mais em questão de segundos. Qualquer adolescente que se torne um headbanger hoje pode, em questão de dias ter a mesma coleção que levei anos para juntar. Repito: não é despeito pela facilidade, mas a luta para conseguir algo trazia embutido um grande valor pessoal, ausente dos velozes downloads de hoje. O mesmo se aplica as bandas: hoje é fácil ter um instrumento, é fácil gravar, ter CD na mão e divulgar: é nessa hora que a qualidade cai e a quantidade aumenta, e daí voltamos ao que disse no início desse texto. Ouço muita coisa nova, mas nada que seja capaz de me encantar como acontecia no passado. Pessoalmente, desde o Slayer, a única banda que foi capaz de me deixar embasbacado foi o Dimmu Borgir, que se mostrou uma puta novidade com aquele Black Metal Sinfônico – e olha que não sou fã de Black Metal – extremamente técnico e soturno, fruto do uso inteligente dos teclados, algo não habitual até então neste tipo de som.

É óbvio que o próprio esgotamento do estilo chegaria em algum momento (desculpem-me os puristas, mas o que falta se inventar no Metal?) e aí entraríamos num ciclo de repetição até que algum novo talento apareça e seja a tábua de salvação do estilo. Para se ter uma ideia, basta pensar no seguinte: bandas como Slayer, Megadeth, Metallica, Anthrax, Exodus, Iron Maiden, Motorhead, AC/DC, Saxon, Overkill, Kiss, Destruction, Sodom, Accept, Kreator, Rush e muitas outras estão na ativa há 25, 30 anos e, mais cedo ou mais tarde, vão parar. Agora, quais são os nomes mais novos, de mesmo porte, que estarão em seu lugar?  Particularmente, não consigo visualizar nomes a altura para representar uma continuidade.  Ou melhor dizendo, alguma conseguirá revolucionar a cena como os nomes citados o fizeram, cada um do seu modo? Essa “recessão” fica ainda mais comprovada pelo saudosismo que se levanta de vem em quando, tendo hoje como figura o revival do Thrash, com as bandas da Bay Area (ainda) em alta e outras tantas simplesmente copiando descaradamente - até no visual - o que se fez milhares de vezes naquela época. Há alguns anos atrás, o Death Metal foi a bola da vez, com uma banda atrás da outra adotando o estilo, numa onda que veio e passou.

Entendam, não estou dizendo que o Metal vai morrer, mas não sei dizer os rumos que ele vai tomar sem o espírito guerreiro que tinha no início. A geração de hoje encontra um cenário mundial diferente e não há como prever como ela vai escolher mostrar ao mundo sua revolta contra o sistema: se empunhando uma guitarra ou se atrás de um computador.