quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Da Devastação ao Messias: Sepultura


Antigamente, montar uma banda no Brasil não era uma das tarefas mais fáceis. Para começar, era muito difícil comprar instrumentos nacionais de qualidade, pois eram caros. Importar então, nem se fala. Discos e revistas estrangeiros não chegavam aqui, não havia publicações nacionais, havia poucas lojas e selos especializados no estilo e, é claro, ainda não havia Internet. Este cenário de terror do início dos anos 80, entretanto, não foi suficiente para barrar o surgimento da cena metálica brasileira, em especial a mineira, que em meio a um boom de bandas de diversos estilos, viu nascer o seu maior representante: o Sepultura. Num misto de batalha, talento e sorte, a banda conseguiu crescer a ponto de ultrapassar nossas fronteiras e fazer sucesso, aqui e no exterior, durante quase uma década. Nesse período, a banda seguiu numa crescente de sucesso e reconhecimento, levando ao mundo o metal nacional, até que as famigeradas diferenças separaram a banda. Apesar da realidade muito diferente de hoje, com uma maior facilidade de recursos, informações e uma cena numerosa (ainda que, com características bem diferentes), é certo que não teremos nunca mais um novo Sepultura. Os ventos do passado pararam de soprar e os músicos, apesar de ainda na ativa, trilham hoje caminhos diferentes.



Para quem eventualmente não saiba – a galera mais jovem talvez - o Sepultura foi simplesmente o maior nome do Metal nacional em todos os tempos e, proporcionalmente, um dos maiores nomes da música brasileira a nível mundial. Apenas outros poucos nomes no Brasil conseguiram repercussão parecida dentro do Metal mundial: Angra, Ratos de Porão e Krisiun talvez sejam os mais expressivos, com reconhecimento e turnês internacionais bem sucedidas. Mas entre o fim dos anos oitenta e a primeira metade dos anos noventa, o Sepultura reinava absoluto, com uma sequência de álbuns clássicos lançados e excursões pelo mundo com nomes do primeiro escalão do Metal, numa fase áurea que sucumbiu à separação da banda em dezembro de 1996. De lá para cá, as coisas nunca mais foram as mesmas, e é óbvio que os rumores de uma volta da formação clássica nunca cessaram desde então, embora não haja nenhum indicativo de que um dia isso irá acontecer.

Do nascimento ao reconhecimento, o Sepultura foi brilhante, até mesmo na sua fase mais tosca (1985-1986) onde o EP “Bestial Devastation” e o LP “Morbid Visions” eram a expressão do Death Metal que começava a invadir a cena mundial (futuros medalhões como Death, Morbid Angel, Obituary e Deicide também estavam iniciando suas carreiras) e que a banda se encarregava de lançar por aqui. Me recordo até hoje do impacto de ouvir o EP de estréia, algo totalmente inédito em termos de Brasil. O espanto aumentou ainda mais em 1987, com a mudança na formação que trouxe Andreas ao grupo e o lançamento do sensacional “Schizophrenia”, com a banda tendo uma evolução técnica espetacular – Igor principalmente – e apresentando um Thrash Metal soberbo. Com a repercussão do álbum aqui e lá fora (que foi até pirateado e lançado no exterior sem o consentimento da banda) o Sepultura começou sua jornada ao sucesso internacional, que viria no álbum seguinte, o estrondoso “Beneath the Remains” (1989). Gravado por aqui mas com um produtor americano, o disco foi o pulo do gato para a banda, com direito a vídeo veiculado na MTV (“Inner Self”) e a primeira tour gringa, como openning act para os alemães do Sodom.

Com uma evolução crescente no som e na postura em palco, o Sepultura começava a ter mais e mais apoio da gravadora. Para o álbum seguinte (“Arise”, 1991) o grupo teve a oportunidade de gravar na Flórida, no templo do Death / Thrash metal mundial, o Morrissound Studios. Não é preciso nem dizer que o disco é clássico de ponta a ponta e os colocou em definitivo no cenário mundial. A banda passou a ser vista regularmente nos principais festivais europeus e via seu nome cada vez maior também nos EUA. Coroando o sucesso obtido com extrema ousadia, os 2 albuns seguintes (“Chaos A.D. de 1993 e “Roots” de 1996) foram lançados e chocaram o mundo com uma mudança de direcionamento, focada mais no peso e menos na velocidade, com a inclusão de elementos tribais extremamente bem encaixados. Os 2 discos foram maravilhosamente bem recebidos, apesar de algum estranhamento por parte dos fãs mais radicais num primeiro momento. Mas com o sucesso vieram as discordâncias, ciúme e desentendimentos, que culminaram com a separação de uma das maiores bandas do Metal mundial.


Ao se separarem, Max Cavalera e o restante da banda tiveram resultados bem distintos, tendo apenas em comum o fato de que a relevância obtida com o Sepultura original nunca mais foi alcançada por nenhum deles. Entretanto, é notório que Max, por diversos fatores, foi mais bem sucedido que Andreas e cia. Max montou o Soulfly, que apesar do vacilante New Metal no início de carreira (mais ou menos do ponto onde “Roots” parou, mas sem o mesmo brilho), hoje segue forte no Thrash Metal com alguns álbuns realmente muito bons. Além disso, depois de 10 anos sem falar com o irmão Igor, ambos reataram e montaram o Cavalera Conspiracy, que junto com o Soulfly, também desfruta de boa repercussão a nível mundial. As razões para este sucesso talvez estejam ligadas ao fato de que, ao sair, Max levara consigo a empresária / esposa (alvo da discórdia), a gravadora e toda a estrutura de que a banda dispunha. Some-se a isso ao fato de residir em Phoenix (Arizona), o que tornou mais fácil manter seu nome em evidência dada a proximidade dos grandes mercados, mesmo sem estar com o Sepultura por trás de tudo.

Quanto ao Sepultura restante, inicialmente um trio com Andreas, Paulo e Igor começando do zero pela saída de Max, não havia outra alternativa senão encontrar outra voz para a banda. Depois de uma seleção estranha - onde Chuck Billy do Testament não foi aprovado (penso se eles não se arrependeram disso depois...) - a banda optou pelo ilustre desconhecido Derrick Green, um americano com background no Hardcore  (e que até hoje não vejo ter conexão com o som da banda) para assumir as vozes, com a dura missão de ajudar o Sepultura a se reerguer. É óbvio que a resistência dos fãs xiitas ao novo vocalista e o material de qualidade muito inferior ao que a banda fazia no passado fizeram o Sepultura penar para se levantar. E mesmo depois de 20 anos e oito álbuns de estúdio após a separação (sendo que Igor tocou apenas nos 4 primeiros e depois saiu) o Sepultura não conseguiu o mesmo êxito de Max, levando muito tempo até para mesmo para conseguir engrenar novamente as turnês internacionais. Aproveito para deixar registrado aqui que “Against” (1998), 1º álbum pós separação, é uma das coisas mais pavorosas que eu já ouvi até hoje, sendo pior até que “Soulfly”, 1º álbum do Max, que era absurdamente calcado naquele Metal pula pula que dominava as paradas americanas na época.

Muito se discutiu se Andreas deveria continuar com a bandeira “Sepultura”. Como na época Max abriu mão do nome e Igor ainda estava na banda, foi natural que assim continuassem. Só não contavam com o fato de que isso fosse aplicar-lhes um peso ainda maior, face a expectativa de público e crítica quanto a qualidade do novo material. A escolha equivocada do vocal e a fraca repercussão dos 3 primeiros álbuns pós separação (“Against” de 1998, “Nation” de 2001 e “Roobarck” de 2003) eram o indício de que as coisas não iriam melhorar. Apesar da evolução em “Dante XXI” em 2006, banda nunca conseguiu decolar novamente, com uma base restrita de fãs e de repercussão, bem menor do que se via no passado. Além de Derrick não ser o vocalista adequado – reclamação recorrente dos chamados “viúvas do Max” – ao meu ver a banda também errou quando continuou com apenas uma guitarra. Não é difícil perceber como o som do grupo se perde nas músicas mais antigas (muito mais complexas) e que, sem uma 2ª guitarra, torna isso muito mais evidente. Talvez até mesmo por isso a banda tenha passado a optar por estruturas mais simples nas músicas, com os intrincados riffs do passado sendo deixados de lado.

Apesar de melhor sucedido, Max também tem seus problemas: com uma voz ao vivo que atualmente já não mostra o mesmo vigor de outrora, talvez em função de uma condição física já não mais muito favorável, seus shows têm caído muito de qualidade. Por outro lado, Ig(g)or continua um grande batera, embora tenha evoluído seu estilo para algo mais simples, em função talvez dos anos no Sepultura após a saída do irmão, onde a banda simplificou a estrutura das músicas. Com isso, o material do Sepultura – principalmente dos álbuns mais técnicos - também sofre nas mãos dos irmãos Cavalera quando executado ao vivo. Com base nisso, fica realmente a dúvida de como seria uma reunião da banda, pois a expectativa do passado se chocaria brutalmente com a realidade dos músicos hoje.

Atualmente o Sepultura segue em turnê do seu 8º álbum (“Machine Messiah” de 2017) e conta com Derrick Green vocais, Andreas Kisser na guitarra, Paulo Jr no baixo e Eloy Casagrande na bateria. Max está prestes a lançar o 11º álbum de estúdio do Soulfly (“Ritual”) que conta também com Marc Rizzo na guitarra solo, Zyon Cavalera (seu filho) na bateria e Mike Leon no Baixo; O Cavalera Conspiracy, além de Max e Igor, conta também com o mesmo Marc Rizzo e mais o baixista Johny Chow. A banda lançou seu 4º álbum, Psychosis, em 2017.


Apenas uma coisa é certa, enquanto a reunião não vem: das cinzas do Sepultura original brotaram 3 novas e distintas bandas, capazes de agradar a Gregos e Troianos. É questão de apenas aproveitar o que for do seu gosto. 

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