quinta-feira, 21 de maio de 2026

Angraverso ao Avesso

 


O Brasil é um país notório pela sua informalidade e frequentemente classificado como uma bagunça. Não somos protocolares, não somos organizados, estruturados, pontuais ou qualquer outra característica que remeta a uma sociedade devidamente ordenada. Tudo é feito sem muita programação, na maior das vezes no improviso, ao sabor dos acontecimentos. Faz parte do DNA do Brasileiro e no Metal não é diferente, apesar da profissionalização crescente que o estilo vem apresentando já há muitos anos. Entretanto, a cabeça do músico brasileiro não pensa como a do americano ou europeu, por exemplo, que vão além da música, visualizando tudo no seu entorno com muita seriedade, compreendendo que a sua carreira é muito mais que estar num palco ou ter com um álbum na mão do fã. É algo extremamente complexo e sério, que tem muita coisa por trás, mas que no Brasil é afetado pelo nosso “jeitinho” de ser.

Talvez essa seja a explicação para a confusão que sempre permeou a carreira do Angra, que culminou recentemente num aviso de “fui, mas já voltei” disfarçado de hiato indefinido, pazes seladas e um “comeback” de músicos há muito distantes da banda, saída abrupta do vocalista,  sem nenhuma cerimônia, tudo isso envolvido num Marketing pra lá de rocambolesco. Todo mundo sabe que a banda sempre foi problemática, embora um inegável sucesso dentro e fora do Brasil. A gloriosa e meteórica carreira, construída com André Matos no vocal teve seu primeiro abalo com a sua quase saída após o sensacional “Holy Land”, segundo álbum da banda. Apesar de contornada a situação, André acabou saindo depois do álbum seguinte, “Fireworks”. Refeitos do abalo da perda do seu vocalista, a banda retorna com Edu Falaschi, que permaneceria de 2001 a 2012 gravando álbuns emblemáticos como “Rebirth” e “Temple of Shadows”. A saída de Edu abriu vaga para Fabio Lione (ex-Rhapsody), que permaneceu na banda de 2013 a 2026. Três vocalistas diferentes, três fases distintas, muitos altos e baixos.


É verdade que a banda aproveitou uma chance de ouro ao aceitar o show do Bangers 2026, show esse condicionado a uma reunião da formação do álbum “Rebirth”. O único problema é que a banda tinha outros planos, no caso o fatídico hiato comunicado pelo Rafael Bittencourt em 2025. Após o álbum acústico, a banda daria uma parada sem prazo determinado para volta. Entretanto, logo na sequência desse anúncio já pipocaram notícias sobre o possível descontentamento de Fabio Lione sobre essa interrupção das atividades do Angra. A meu ver, o primeiro ponto foi a questão de anunciar uma parada e gerar hype sobre isso sem pelo menos haver um consenso e programação interna na banda para isso. Com um cronograma bem definido entre todos, não haveria o vexame de uma discordância. Apesar do anúncio mencionar “hiato indefinido”, ninguém é louco de fazer isso a menos que de houvesse uma forte propensão a acabar a banda, o que não era o caso. No caso do Angra, onde todos têm projetos paralelos, era impossível fazer isso sem se programar e conciliar as agendas envolvidas.

Mas ao aceitar o show e romper o hiato (em questão de meses do seu anúncio), a banda simplesmente confundiu todo mundo. Pior: instalou-se o elefante branco na sala, pois reuniões sempre dão pano para manga, uma vez que a boataria corre solta no que se refere a volta definitiva de músicos afastados, ainda mais quando se trata de uma determinada fase que fez muito sucesso. O anúncio da participação de Edu Falaschi, Aquiles Priester e Kiko Loureiro (este alvo de rumores desde a sua saída espontânea do Megadeth) fez os fãs sonharem com retorno em definitivo da formação Rebirth. E Lione, como ficaria no meio disso? A resposta veio rápida, com o anúncio do próprio de que estaria deixando a banda (?), fazendo uma última apresentação justamente no fatídico show do Bangers. E para aumentar a bagunça, Alírio Neto foi ventilado como mais um personagem dessa novela, uma vez que o show do Bangers teria 4 atos distintos. O primeiro com Alírio cantando a fase Matos, um segundo com Lione cobrindo o próprio repertório e um terceiro com Edu, Aquiles e Kiko cobrindo o álbum Rebirth. Um encerramento apoteótico contaria com todos os músicos tocando juntos. Para esculhambar de vez, mencionaram a participação do Alírio - sem confirmar sua eventual entrada na banda - antes do Lione avisar que pularia fora. E mesmo depois desse anúncio, ninguém disse nada sobre o assunto... Foram necessárias algumas entrevistas para se entender que definitivamente Alírio era o novo vocalista do Angra, o que gerou um climão: ficou claro que Lione antecipou o anuncio e que a troca já estava nos planos, mandar um embora e contratar o outro... Paralelamente a isso, Marcelo Barbosa e Bruno Valverde ainda permanecem como incógnitas no futuro da banda. 


No meio desse cenário incerto, mais shows foram marcados, transformando um único show especial no ponta pé inicial de uma turnê comemorativa. Ou seja, o fã não está nem aí para a organização ou a falta dela: quer ver a banda reunida e ao vivo, revivendo o passado glorioso. Após o show do Bangers, Aquiles deu o tom da motivação neste reencontro, colocando a venda quase tudo que usou no show: pratos, peles, baquetas, luvas e etc. É isso mesmo, itens que geralmente são atirados ao público foram postos à venda sem a menor cerimônia. E pior: TUDO foi vendido. Por mais escroto que possa parecer, talvez a atitude do Aquiles seja a mais sincera entre todos, uma vez que, pelo menos eu, não vi até agora nenhuma entrevista dele declarando amor eterno aos companheiros até então distantes. Outra demonstração do interesse profissional (e não pessoal) dele foi o condicionamento da inclusão do Hangar no cast do Bangers. Para quem não sabe, o Hangar é a banda ultra profissional dele (até ônibus de turnê personalizado os caras tinham), com vários discos lançados, mas que nunca caiu no gosto da galera. Isso enterra de vez a ilusão de reaproximação entre os músicos, retomando a amizade do passado, como muitos pensam. Edu Falaschi ganhou muito com essa reaproximação, uma vez que seu projeto/carreira solo também espremeu ao máximo o repertório do Angra em que participou, ainda que seu material próprio também estivesse indo bem (apesar de ser uma cópia descarada, em termo de estilo, do material do álbum “Temple of Shadows”, seu maior sucesso no Angra). Talvez apenas Kiko tenha retornado de bom coração, mesmo porque também é “dono” da banda junto com o Rafael. Depois da saída do Megadeth, era apenas uma questão de tempo retornar à banda. E finalmente, ao que parece, a grana não foi suficiente para reunir os rebeldes Luis Mariutti e Ricardo Confessori. Enquanto primeiro continua (também) espremendo ao máximo a obra do Andre Matos (tanto no Angra, quanto no Shaman) com o sui generis Shamangra, o segundo segue carreira solo com sua banda e não faz questão nenhum de reencontrar os antigos companheiros.


Para coroar a falta de organização e falta visão de futuro, lembro que em dezembro de 2020 foi anunciado o relançamento da discografia completa da banda. Vários dos discos do Angra estão fora de catálogo e esses relançamentos teoricamente resolveriam esse problema. Para quem não sabe, o Angra sempre lançou seus discos de maneira meio aleatória, cada um por um selo/gravadora diferentes, provavelmente por conta de acordos pautados para o que era melhor para a banda no momento, mas sem antever que isso seria um problema no futuro. Um relançamento dessa magnitude, cobrindo toda a discografia da banda, envolveria não um, mas vários acordos diferentes com gravadoras e selos, isso sem mencionar os próprios músicos envolvidos. E isso é um ponto sensível demais, pois temos André Matos já falecido (obviamente representado atualmente por um espólio), Luis Mariuti, Ricardo Confessori, Aquiles Priester, Edu Falaschi e, por que não, Kiko Loureiro. Com base nisso, é óbvio que o relançamento completo não se concretizou, tendo apenas 3 albuns relançados nesse período: “Angels Cry”, “Rebirth” e “Temple of Shadows”. Quanto ao demais, estamos no aguardo dos próximos capítulos. Concluindo meu raciocínio, imaginem se a banda já tivesse cumprido essa programação de relançamentos e estivesse com seus álbuns no mercado nesse momento em que um há um revival muito intenso por conta do show de reunião.

Fica aqui uma reflexão: alguém consegue imaginar um Iron Maiden dando um mole desses? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário