O Brasil é um país notório pela sua informalidade e
frequentemente classificado como uma bagunça. Não somos protocolares, não somos
organizados, estruturados, pontuais ou qualquer outra característica que remeta
a uma sociedade devidamente ordenada. Tudo é feito sem muita programação, na
maior das vezes no improviso, ao sabor dos acontecimentos. Faz parte do DNA do
Brasileiro e no Metal não é diferente, apesar da profissionalização crescente
que o estilo vem apresentando já há muitos anos. Entretanto, a cabeça do músico
brasileiro não pensa como a do americano ou europeu, por exemplo, que vão além
da música, visualizando tudo no seu entorno com muita seriedade, compreendendo
que a sua carreira é muito mais que estar num palco ou ter com um álbum na mão
do fã. É algo extremamente complexo e sério, que tem muita coisa por trás, mas que
no Brasil é afetado pelo nosso “jeitinho” de ser.
Talvez essa seja a explicação para a confusão que sempre
permeou a carreira do Angra, que culminou recentemente num aviso de “fui, mas já
voltei” disfarçado de hiato indefinido, pazes seladas e um “comeback” de músicos
há muito distantes da banda, saída abrupta do vocalista, sem nenhuma cerimônia, tudo isso envolvido num
Marketing pra lá de rocambolesco. Todo mundo sabe que a banda sempre foi
problemática, embora um inegável sucesso dentro e fora do Brasil. A gloriosa e
meteórica carreira, construída com André Matos no vocal teve seu primeiro abalo
com a sua quase saída após o sensacional “Holy Land”, segundo álbum da banda.
Apesar de contornada a situação, André acabou saindo depois do álbum seguinte,
“Fireworks”. Refeitos do abalo da perda do seu vocalista, a banda retorna com
Edu Falaschi, que permaneceria de 2001 a 2012 gravando álbuns emblemáticos como
“Rebirth” e “Temple of Shadows”. A saída de Edu abriu vaga para Fabio Lione
(ex-Rhapsody), que permaneceu na banda de 2013 a 2026. Três vocalistas diferentes,
três fases distintas, muitos altos e baixos.
É verdade que a banda aproveitou uma chance de ouro ao
aceitar o show do Bangers 2026, show esse condicionado a uma reunião da
formação do álbum “Rebirth”. O único problema é que a banda tinha outros
planos, no caso o fatídico hiato comunicado pelo Rafael Bittencourt em 2025. Após
o álbum acústico, a banda daria uma parada sem prazo determinado para volta. Entretanto,
logo na sequência desse anúncio já pipocaram notícias sobre o possível
descontentamento de Fabio Lione sobre essa interrupção das atividades do Angra.
A meu ver, o primeiro ponto foi a questão de anunciar uma parada e gerar hype
sobre isso sem pelo menos haver um consenso e programação interna na banda para
isso. Com um cronograma bem definido entre todos, não haveria o vexame de uma
discordância. Apesar do anúncio mencionar “hiato indefinido”, ninguém é louco
de fazer isso a menos que de houvesse uma forte propensão a acabar a banda, o que
não era o caso. No caso do Angra, onde todos têm projetos paralelos, era
impossível fazer isso sem se programar e conciliar as agendas envolvidas.
Mas ao aceitar o show e romper o hiato (em questão de meses
do seu anúncio), a banda simplesmente confundiu todo mundo. Pior: instalou-se o
elefante branco na sala, pois reuniões sempre dão pano para manga, uma vez que a
boataria corre solta no que se refere a volta definitiva de músicos afastados,
ainda mais quando se trata de uma determinada fase que fez muito sucesso. O
anúncio da participação de Edu Falaschi, Aquiles Priester e Kiko Loureiro (este
alvo de rumores desde a sua saída espontânea do Megadeth) fez os fãs sonharem
com retorno em definitivo da formação Rebirth. E Lione, como ficaria no meio
disso? A resposta veio rápida, com o anúncio do próprio de que estaria deixando
a banda (?), fazendo uma última apresentação justamente no fatídico show do
Bangers. E para aumentar a bagunça, Alírio Neto foi ventilado como mais um
personagem dessa novela, uma vez que o show do Bangers teria 4 atos distintos.
O primeiro com Alírio cantando a fase Matos, um segundo com Lione cobrindo o
próprio repertório e um terceiro com Edu, Aquiles e Kiko cobrindo o álbum
Rebirth. Um encerramento apoteótico contaria com todos os músicos tocando
juntos. Para esculhambar de vez, mencionaram a participação do Alírio - sem
confirmar sua eventual entrada na banda - antes do Lione avisar que pularia
fora. E mesmo depois desse anúncio, ninguém disse nada sobre o assunto... Foram
necessárias algumas entrevistas para se entender que definitivamente Alírio era
o novo vocalista do Angra, o que gerou um climão: ficou claro que Lione
antecipou o anuncio e que a troca já estava nos planos, mandar um embora e
contratar o outro... Paralelamente a isso, Marcelo Barbosa e Bruno Valverde ainda
permanecem como incógnitas no futuro da banda.
No meio desse cenário incerto, mais shows foram marcados,
transformando um único show especial no ponta pé inicial de uma turnê
comemorativa. Ou seja, o fã não está nem aí para a organização ou a falta dela:
quer ver a banda reunida e ao vivo, revivendo o passado glorioso. Após o show
do Bangers, Aquiles deu o tom da motivação neste reencontro, colocando a venda
quase tudo que usou no show: pratos, peles, baquetas, luvas e etc. É isso
mesmo, itens que geralmente são atirados ao público foram postos à venda sem a
menor cerimônia. E pior: TUDO foi vendido. Por mais escroto que possa parecer,
talvez a atitude do Aquiles seja a mais sincera entre todos, uma vez que, pelo
menos eu, não vi até agora nenhuma entrevista dele declarando amor eterno aos
companheiros até então distantes. Outra demonstração do interesse profissional (e
não pessoal) dele foi o condicionamento da inclusão do Hangar no cast do
Bangers. Para quem não sabe, o Hangar é a banda ultra profissional dele (até
ônibus de turnê personalizado os caras tinham), com vários discos lançados, mas
que nunca caiu no gosto da galera. Isso enterra de vez a ilusão de
reaproximação entre os músicos, retomando a amizade do passado, como muitos
pensam. Edu Falaschi ganhou muito com essa reaproximação, uma vez que seu
projeto/carreira solo também espremeu ao máximo o repertório do Angra em que
participou, ainda que seu material próprio também estivesse indo bem (apesar de
ser uma cópia descarada, em termo de estilo, do material do álbum “Temple of
Shadows”, seu maior sucesso no Angra). Talvez apenas Kiko tenha retornado de
bom coração, mesmo porque também é “dono” da banda junto com o Rafael. Depois
da saída do Megadeth, era apenas uma questão de tempo retornar à banda. E
finalmente, ao que parece, a grana não foi suficiente para reunir os rebeldes
Luis Mariutti e Ricardo Confessori. Enquanto primeiro continua (também)
espremendo ao máximo a obra do Andre Matos (tanto no Angra, quanto no Shaman)
com o sui generis Shamangra, o segundo segue carreira solo com sua banda e não
faz questão nenhum de reencontrar os antigos companheiros.
Para coroar a falta de organização e falta visão de futuro,
lembro que em dezembro de 2020 foi anunciado o relançamento da discografia
completa da banda. Vários dos discos do Angra estão fora de catálogo e esses
relançamentos teoricamente resolveriam esse problema. Para quem não sabe, o
Angra sempre lançou seus discos de maneira meio aleatória, cada um por um
selo/gravadora diferentes, provavelmente por conta de acordos pautados para o
que era melhor para a banda no momento, mas sem antever que isso seria um
problema no futuro. Um relançamento dessa magnitude, cobrindo toda a
discografia da banda, envolveria não um, mas vários acordos diferentes com
gravadoras e selos, isso sem mencionar os próprios músicos envolvidos. E isso é
um ponto sensível demais, pois temos André Matos já falecido (obviamente
representado atualmente por um espólio), Luis Mariuti, Ricardo Confessori,
Aquiles Priester, Edu Falaschi e, por que não, Kiko Loureiro. Com base nisso, é
óbvio que o relançamento completo não se concretizou, tendo apenas 3 albuns
relançados nesse período: “Angels Cry”, “Rebirth” e “Temple of Shadows”. Quanto
ao demais, estamos no aguardo dos próximos capítulos. Concluindo meu
raciocínio, imaginem se a banda já tivesse cumprido essa programação de
relançamentos e estivesse com seus álbuns no mercado nesse momento em que um há
um revival muito intenso por conta do show de reunião.
Fica aqui uma reflexão: alguém consegue imaginar um Iron Maiden dando um mole desses?
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